Professora ajoelhada na altura de uma menina tímida, de braços cruzados, afastada da roda de bailarinas, estendendo a mão com calma

A criança diz “não quero fazer”: o que a professora de ballet pode fazer

Costuma-se ler o “não quero” da criança como falta de vontade, e a resposta que se oferece à professora, nessa leitura, oscila entre dois extremos: insistir até vencer, ou deixar a criança sentar e esperar que ela volte quando quiser. O primeiro confunde autoridade com pressão; o segundo confunde respeito com ausência. Ambos tratam a frase como se ela fosse o problema, quando ela quase sempre é apenas a parte visível de uma outra coisa: cansaço, fome, tédio, medo de não acertar, vontade de testar o adulto. A pergunta correta não é como fazer a criança dizer sim, mas o que, exatamente, aquele não está tentando dizer.

A primeira atitude, por isso, é de observação, e não de comando. Uma professora que olha para a turma como um número perde justamente o que lhe permitiria convencer, porque cada criança se sente estimulada e desafiada por uma coisa diferente. Há dias de gravação, longos, em que uma criança de três anos e meio, depois de mais de uma hora de concentração séria, pendura-se na barra pedindo apenas que tudo acabe. Insistir na energia da insistência não leva a lugar nenhum. O que funciona é reconhecer, em voz clara, que se percebeu o cansaço, e oferecer à criança aquilo que ela de fato quer: “eu sei que você está cansada, também estou; vamos fazer esse rapidinho, com atenção, para acabar logo e a gente se divertir”. Em outra ocasião, no meio do passeio da borboleta, exercício de abdômen e perna em que os cotovelos ficam no chão e as pernas pedalam, uma menina anunciou que a barriga estava morrendo de fome. A resposta não foi uma bronca nem uma negociação; foi entrar na brincadeira da fome e propor uma corrida de bicicleta até a comida. A criança fez o exercício inteiro, movida pela própria distração. Dar o estímulo que ela quer não é ceder. É traduzir a exigência da aula para a linguagem do que ela está sentindo.

Há, porém, um segundo recurso, e ele pede mais cuidado, porque é o que mais facilmente se degrada em troca. Quando o exercício realmente não é o mais divertido da aula, pode-se dizer isso com franqueza, sem dizer que é difícil, porque a palavra difícil já instala o medo; diz-se que ele não é tão simples, que é um pouquinho mais complicado, e que bailarinas dedicadas fazem o que a aula pede. Depois, propõe-se como diálogo, e não como pagamento: este passa rápido e, em seguida, vem um que você escolhe. A diferença é sutil e decisiva. Se a criança entende que só faz porque ganha algo, aprende o preço de tudo; se entende que faz porque é importante fazer, e que o descanso e a escolha são parte do ritmo da aula, aprende estrutura. Por isso a melhor recompensa nunca é um objeto, mas uma atividade compartilhada, um passeio depois da aula, um filme, um lanche juntas, algo que aproxime, em vez de comprar.

O terceiro recurso é o mais inesperado: desqualificar o argumento. Quando a criança diz que não consegue, a resposta não é consolar nem discutir a dificuldade, mas lembrar, com carinho e convicção, que todas as vezes em que se pediu algo ela fez, e que ninguém estaria ali dando aula se acreditasse que ela não conseguiria. É um modo de retirar o chão do argumento sem diminuir a criança. O mesmo vale para a discussão sobre como fazer. Numa brincadeira do tipo “Pulando o Jacaré”, em que o salto precisa ser alto para que o bicho não alcance, uma criança que insiste em pular de outro jeito, mais fácil, ouve que o pulo escolhido passaria perto demais do jacaré e que só o do gato, mais alto, serve. Ela deixa de argumentar porque o argumento deixou de servir, e a energia que gastaria discutindo passa para o corpo. Há uma inteligência pedagógica nisso: a professora dispõe de mais estratégias do que a criança, e não precisa vencê-la; precisa apenas oferecer um caminho melhor do que a recusa.

Mas é preciso fazer uma ressalva importante. Nada disso funciona como técnica solta, aplicada no momento do impasse. Cada um desses recursos depende de uma relação anterior, de uma professora que conhece a criança o bastante para saber se o que ela pede é descanso, segurança ou plateia. E há limites que nenhum recurso desfaz. Se o não vem acompanhado de choro de verdade, de desconforto real, a conversa passa a ser com o responsável, e a professora não deve forçar nem diagnosticar. O mesmo vale para a dor: no alongamento, pode-se avisar que vai dar um ardidinho, sem usar a palavra dor, que desperta o medo; mas o ardidinho é sensação combinada, nunca sofrimento imposto. A criança precisa saber que o “não quero” será escutado, mesmo quando a resposta for um “mas esse a gente faz”.

Também é preciso desconfiar da pressa em converter toda recusa em docilidade. Uma sala em que a criança nunca diz não pode ser uma sala em que ela não se sente segura para dizer. O que se busca não é silêncio, mas confiança suficiente para que o não possa ser dito e atravessado. Nesse sentido, o conforto que a aula oferece não é a ausência de esforço: é a certeza de que, quando o esforço vem, alguém está do lado, atento ao que o corpo diz antes de a boca falar.

No fundo, não se trata apenas de convencer uma criança a fazer um exercício. Trata-se de ensinar, pela maneira como o adulto responde, que uma recusa pode ser ouvida sem ser obedecida e sem ser vencida, e que há sempre um terceiro caminho entre a imposição e a rendição. A criança que aprende isso numa aula de ballet leva a lição para fora da sala: descobre que pode sentir vontade de desistir e, ainda assim, permanecer, porque encontrou quem a ajudasse a atravessar.

A Rafa Assistente, que traz esta live entre suas fontes, pode ser testada gratuitamente por 24 horas, e todo o método do Você Bailarina está reunido na página da assinatura.

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